Identidade, potência
Fotos de Patricia Osses

Livia Aguiar

Internet e cultura se consolidam na difusão de histórias de diferentes lugares de fala, na contestação de estruturas de poder e, também, na defesa contra as pequenas e grandes práticas machistas

Pés gigantescos, cabecinha apoiada na mão como um Pensador tropical, fundo azul elétrico, um cacto verde, o sol que parece um peito lactante. O Abaporu foi pintado por Tarsila do Amaral em 1928 como presente para seu então companheiro, Oswald de Andrade, e inspirou o Manifesto Antropófago. Da maneira como foi pensada pelos modernistas, a antropofagia foi uma tentativa de radicalizar a identidade do nosso país continental: “Só a antropofagia nos une. Socialmente. Economicamente. Filosoficamente”. Noventa anos depois, as múltiplas culturas brasileiras até que enfim estão em um momento especialmente diverso, com ferramentas ampliadas pela internet para se afirmar, expandir-se, unir-se e se multiplicar.

É nas redes sociais, na troca clandestina de livros em PDF, na tradução livre de textos estrangeiros e na possibilidade de criação dos próprios canais de comunicação que é possível aumentar o acesso a teorias não hegemônicas e difundir histórias com diferentes lugares de fala.

Na cultura, a diversidade segue na boa briga por espaço. Às vezes pelas fendas, às vezes com o pé na porta. Há 20 anos, seria inimaginável que a drag queen Pabllo Vittar, a multiartista bissexual Karol Conka, a rapper adolescente MC Soffia, a tecnobrega paraense Gaby Amarantos e a trans de voz potente Liniker alcançariam a projeção que têm hoje na música pop, colorindo a programação dos meios tradicionais de comunicação com sua multiplicidade de sotaques, tons de pele, sexualidades, gêneros e bandeiras políticas.


Perto do coração

Christian Dunker

No livro 'Longe da Árvore', Andrew Solomon investiga os pais que não se reconhecem nos filhos – e como é possível, além das diferenças, encontrar a reconciliação

Andrew Solomon já era conhecido dos círculos psicológicos por O Demônio do Meio-dia, um estudo sobre a depressão em que ele combina análise de narrativas colhidas com dados empíricos com uma profunda conexão biográfica. Pode-se dizer que se trata de uma reunião entre um tipo de jornalismo investigativo, mas que lentamente vai combinando mais e mais ângulos do problema, variando mais as vozes e as perspectivas, até que terminamos na forma ensaio, com sua nítida capacidade de impactar politicamente o assunto, com a força de uma visão de conjunto, sem deixar de ser, ao mesmo tempo, parte de um romance de formação.

Em Longe da Árvore: Pais, Filhos e a Busca da Identidade, Solomon, jornalista e professor de psicologia clínica em Columbia e de psiquiatria em Weill Cornell, parece ter amadurecido ainda mais essa fórmula. Assim como o livro sobre a depressão se origina na morte da mãe – e no suicídio assistido no qual a família se envolveu, nas dificuldades que ele enfrentou depois disso – agora a questão que abre e fecha o livro parte da relação entre sua diferença, sendo ele gay, em uma família de pais heterossexuais.

O título faz alusão ao ditado de que o fruto nunca cai longe da árvore, ou seja, que os filhos não serão tão diferentes dos pais assim. Nem sempre é dessa forma. Há filhos que nascem muito longe da árvore que os originou. A tese de Solomon é simples e poderosa, pois ele argumenta que nessa situação a identidade vertical, que faz pais reconhecerem seus filhos como continuação e realização de si mesmos, se vê substituída ou ponderada contra o que ele chama de identidade horizontal.

Em outras palavras, quando há uma diferença muito aguda entre pais e filhos, criada por uma deficiência, uma condição desviante ou uma anormalidade biológica, os filhos se percebem mais determinados em sua identidade pela pertença a outras pessoas marcadas pela mesma contingência. Etnia, linguagem, religião e nacionalidade (exceto para imigrantes) são traços de identidades verticais. Homossexualidade, deficiência física, genialidade ou psicopatia, autismo ou deficiência intelectual convocam identidades horizontais. Filhos de mães estupradas constituem o caso dramático de impasse entre horizontalidade e verticalidade.

“Pais violentos agridem menos os filhos que se assemelham a eles; se seu pai é um espancador, reze para que você tenha os traços físicos dele. (...) As identidades verticais, em geral, são respeitadas como identidade; as horizontais são muitas vezes tratadas como defeitos.”

Abordando a situação depurada da solução tão frequentemente idealizada, Solomon mostra como nesses casos pais e filhos podem reconstruir aquilo que era inicialmente sentido como uma desvantagem e uma fonte de distanciamento, quando não de abandono, formando um novo tipo de ligação, repleto de interesse a autorrealização.

Afastando-se do moralismo que costuma atravessar tal tema, Solomon traz casos em que esse movimento acontece e outros tantos em que não se dá. Desse modo, consegue iluminar o caminho e o trabalho necessário para que isso aconteça, e que se recrie uma experiência amorosa entre pais e filhos, assim como de si a si, sem que ao mesmo tempo isso desrespeite o real que está em jogo.

“O fato de ter filhos excepcionais exagera as tendências dos pais: aqueles que seriam maus pais se tornam pais péssimos, mas aqueles que seriam bons pais muitas vezes se tornam extraordinários.”

Ou seja, a diferença, que inicialmente separa, posteriormente nos une, o que parece indicar dois conceitos de diferença, ligados a entendimentos distintos sobre o que significa uma exceção.

Intimidade com a diferença

Por isso, em geral, usamos a noção de doença para depreciar um modo de ser e a noção de identidade para validá-lo. Solomon argumenta que, enquanto a oposição entre doença e identidade for colocada assim, teremos uma espécie de déficit de intimidade, decorrente da ausência de palavras para abordar o dualismo irredutível da situação. Teremos, no melhor dos casos, aceitação e tolerância, e não o que ele descreve no fulcro desse longo livro, que não é apenas a capacidade de sobreviver ao trabalho intenso, ao ressentimento das expectativas contrariadas, ao prejuízo econômico e ao preconceito social; e sim a capacidade de viver uma experiência dotada de um valor intrínseco positivo e que vai além do heroísmo: “A intimidade com a diferença promove reconciliação”.

O livro abre com uma pungente descrição da experiência de Solomon diante dos pais e da experiência escolar, na Nova York dos anos 1960, o tratamento para se curar da homossexualidade, o reconhecimento tácito e progressivo de que ele não estava sozinho. E encerra com a retomada de sua biografia, com os percalços e soluções que ele leva a cabo para realizar seu desejo de ser pai, casar-se com outro homem e formar ao fim uma espécie de família horizontal, envolvendo um casal de lésbicas (a quem seu parceiro havia doado espermatozoides para que pudessem ter uma filha e que retribuem o gesto doando um óvulo para Andrew e John, assim como a amiga que se anexa ao conjunto ao doar o óvulo para o segundo filho do autor).

O livro, autodeclaradamente, exerceu uma função de cura para Solomon. Iniciado a partir de uma reportagem sobre a comunidade dos surdos, ele replica o procedimento para os participantes de um congresso para anões, para pais e filhos com Síndrome de Down, depois autismo e esquizofrenia, em seguida deficiências graves e moderadas de inteligência ou envolvendo limitações físicas congênitas e adquiridas. Depois disso, temos os casos das crianças prodígio, os filhos do estupro, os filhos de criminosos, terminando com a situação de horizontalidade em transgêneros.

Muitos veriam nessa lista o sinal perigoso de aproximação entre condições muito diferentes com alta valência moral, combinando causalidades completamente distintas. Mas é esse o principal mérito do trabalho: mostrar como a existência de particularidades não precisa ser pensada como um universo incomunicável de mônadas cuja única razão de ser é se expandir e se digladiar com outras identidades, menos significativas do que a sua.

Solomon percebe que a maior parte dos entrevistados, que são muitos, apreciam o capítulo no qual se incluem, mas criticam os capítulos dedicados a outros tipos de diferença. Daí que esse trabalho de conjugação de opressões e diferenças, enfocado atualmente pela teoria da interseccionalidade, não seja ainda uma plataforma com clara visibilidade política.

Juridicismo

Longe da Árvore permite entender também como as questões cruciais em torno da lógica do reconhecimento naufragam facilmente diante da cooptação pelo juridicismo. Os pais devem ter o direito de escolher o tipo de embrião que querem como filhos? Deve-se facultar que pais de embriões com Doença de Tay-Sachs, espinha bífida e outras afecções congênitas, que levarão a uma vida breve e muito dolorosa, evitem que isso aconteça em nome de uma “vida justa”? O Estado deve se encarregar de arcar com as despesas de vidas inteiramente institucionalizadas ou vegetativas?

Em vez de argumentar sobre princípios genéricos em torno do que é uma vida e de quais são as condições nas quais ela é dotada de valor, Solomon nos traz casos concretos, que inspiram uma abordagem alternativa. Nela, a particularidade dos envolvidos, de suas condições peculiares, como pais e filhos, em universos específicos de linguagem e formação, deveriam renunciar à axiomática da qual as leis são inerentemente a expressão.

O desejo de ter filhos que são iguais a nós, expressão de nosso narcisismo e de nossos ideais de continuidade, não é uma carta que deve ser excluída do baralho da vida, mas ela tem que ser jogada, em todos os casos, e os casos excepcionais aparentemente são apenas a exageração desse princípio, com a presença e a constituição de um desejo na diferença. Temos dois processos combinados, mas que, ao fim e ao cabo, não são a mesma coisa. Isso já aparece na economia narcísica ordinária como uma espécie de contradição latente:

“Pessoas comuns insistem em ser especiais, enquanto pessoas extraordinárias afirmam que são como quaisquer outras. Pessoas medíocres gostam de ser vistas como notáveis, enquanto pessoas excepcionais anseiam pela comodidade da adequação”.

Reconciliar-se, fazer a resiliência da parentalidade ofendida pela exceção, reconstituir ideais e restabelecer laços narcísicos verticais é um trabalho importante. Mas ele não deve ser confundido com o trabalho singular requerido pela construção de laços horizontais, que curiosamente vão se demonstrando dotados de mais força proporcional, qualitativa e quantitativamente, de ligação.

As duas formas de amor podem encontrar uma relação competitiva ou aditiva. Famílias horizontais estão mais propensas ao divórcio do que famílias verticais, a principal minoria hoje nos Estados Unidos é composta pelos deficientes (15%), e ao que tudo indica o futuro será mais horizontal do que vertical, para todos nós. Aceitação e transformação se mostram, assim, duas exigências necessárias e não excludentes que orientam o novo capítulo de nossas políticas psicoterapêuticas:

“Os primeiros modelos psicanalíticos são de aceitação de problemas da vida; as terapias modernas buscam resolvê-los, suprimi-los ou redefini-los como alguma outra coisa que não um problema. (...) Muitas vezes as pessoas exibem uma felicidade que não sentem, e gente cuja neurose se transformou em infelicidade não é só infeliz mas se acredita fracassada. (...) As tragédias terminarão necessariamente em solução, que as tragédias são uma fase e não o fim do jogo.”

Contra essa oposição entre a reconstrução das tragédias particulares e a produtividade feliz de resultados para problemas, o livro de Solomon parece advogar uma terceira atitude. Trata-se de uma “alegria mais apreciada do que aquela que não foi temperada pelo sofrimento”.  É isso que torna o livro de Solomon urgente e obrigatório para todos os que consideram a ideia de ter filhos. Ele é também da maior utilidade para clínicos e terapeutas que precisam se redimensionar diante das oposições clássicas nas quais foram formados e que frequentemente relegavam à psicologia social o tema da identidade e à psicologia clínica o tema das patologias. Se queremos uma nova configuração para nossas práticas, é decisivo perceber que boa clínica é crítica social feita por outros meios.

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Christian Dunker é psicanalista, professor da USP e autor, entre outros, de Reinvenção da Intimidade: Políticas do Sofrimento Cotidiano

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O sucesso cada vez maior de artistas empoderados e ativistas que não são “o padrãozinho”, especialmente de mulheres não brancas e queer, é resultado do intenso debate identitário que cresce não só no Brasil, como no mundo todo. Nesse debate, a agenda feminista tem tido papel fundamental na produção cultural e na contestação das estruturas de poder construídas, no Brasil, desde o período colonial.

Por intermédio da produção cultural, mensagens de empoderamento vêm ganhando terreno e se traduzindo em debate que visa mudanças econômicas, políticas e sociais. Do outro lado, conservadores fazem força contrária para manter tudo como está.




Consciência de si

A revolução não se dará por meio das redes sociais, mas é nelas que grupos de discussão, apoio e militância vêm conectando pessoas em diferentes localidades. É também na rede que há espaço (teoricamente infinito) para criação de blogs, canais de YouTube e outras plataformas que difundem informações que não aparecem nos meios tradicionais de comunicação. Eles saltam das telas para os movimentos sociais e vice-versa.

Ana Paula Xongani, influenciadora digital, ativista negra e empresária, cresceu participando dos movimentos sociais de base e criou seu canal no YouTube há três anos. Hoje, com mais de 50 mil inscritos, Xongani vê as redes sociais como “uma das facetas dos movimentos” e sinaliza a importância de ocupar todos os espaços. “Não sou só dos movimentos de base nem só dos movimentos on-line. A gente tá na política, na literatura, na academia, nas ruas e nas redes.” Este, o trabalho do influenciador. “Por que não influenciar com pensamento crítico, com o tal empoderamento? Empoderar-se é ter consciência do que se é”, diz Xongani.

A antropóloga feminista Cecília M. B. Sardenberg amplia essa definição ao dizer que empoderamento não é apenas reconhecer as forças sistêmicas que oprimem, como também atuar para mudar as relações de poder existentes: “Empoderamento é um processo dirigido para a transformação da natureza e direção das forças sistêmicas que marginalizam as mulheres e outros setores excluídos em determinados contextos”, define Sardenberg.




10 filmes feministas, dirigidos por mulheres

Foi graças à força da internet, também, que as práticas cotidianas, consideradas banais, do machismo entranhado na nossa cultura foram apontadas como violência de gênero e difundidas mundialmente.

Essa “academia global” deixou às claras, por exemplo, comportamentos como mansplaining (ou "machoexplicação"), que é quando um homem explica algo a uma mulher sem que ela peça por isso, tratando-a com condescendência; manterrupting (ou "machointerrupção"), quando uma mulher é interrompida sem necessidade por homens e é constantemente impedida de concluir frases; bropriating ("machoapropriação"), quando um homem se apropria de frases, ideias e produções de uma mulher; gaslighting ("loucurização"): manipulação psicológica que faz com que a mulher sinta ou pareça para pessoas ao seu redor que é louca e/ou incapaz.




Palco Digital: Marília Gabriela interpreta textos de Maria Rezende, Ledusha, Adélia Prado, Hilda Hilst, Bianca Lafroy e Nayyirah Waheed

Ativistas on-line ajudam a explicar e difundir o pensamento feminista por meio da problematização de casos entre celebridades – como quando Kanye West “machointerrompeu” Taylor Swift na entrega do prêmio de melhor videoclipe feminino do MTV Music Awards de 2009 e virou meme. Para quem não lembra: sem que ninguém perguntasse sua opinião, West subiu no palco e tomou o microfone da ganhadora para dizer que Beyoncé tinha feito melhor. “Taylor, I’mma let you finish, but”.

Até os memes têm seu papel, evidenciando e ridicularizando violências cotidianas. A rede também ajuda na difusão de conceitos feministas por meio de gráficos, letterings e ilustrações que facilitam a compreensão e de textos que relatam experiências pessoais e as conectam com outras experiências e pensamentos teóricos. “O pessoal é político”, já disse Carol Hanisch, filósofa feminista, em artigo publicado em 1969.

Questão de números

Apontar o machismo nosso de cada dia é um passo importante para dissolver crenças que prejudicam mulheres no mercado de trabalho – e na vida cotidiana – e que resultam em salários menores e oportunidades mais escassas. A crise econômica no Brasil afeta a maioria da população brasileira, mas não de maneira igual.

De acordo com o IBGE, a taxa de desemprego em 2017 entre mulheres não brancas bateu em 15,9%; entre homens não brancos, o índice chegou a 12,1% . Na sequência, menos afetados, vêm as mulheres brancas, com 10,6%, e os homens brancos, com 8,5%. Quase a metade do índice de desemprego entre as mulheres não brancas.

Mesmo para quem tem emprego, a desigualdade é aviltante. Segundo pesquisa realizada pela consultoria Catho com quase 8 mil profissionais, mulheres ganham salários menores do que seus pares homens em todos os cargos, áreas de atuação e níveis de escolarização, inclusive em segmentos ocupados por uma maioria feminina, como educação.




O lugar de mulher

Carla Rodrigues

Em vez do antigo debate sobre o woman’s place na sociedade, o importante hoje é agregar todas as pessoas que, marcadas por outras de formas de (re) existência, já não mais reivindicam um único lugar

Houve um tempo, nos idos do século passado, antes da construção do conceito de gênero, antes mesmo até da consolidação do que hoje chamamos de teoria feminista, que o mote das ativistas era discutir “o lugar da mulher”, questão importada da sociedade norte-americana e da discussão sobre a libertação do woman’s place, expressão que em geral pretendia se opor ao aprisionamento das mulheres apenas em lugares naturalizados, como “em casa” ou “na cozinha”.

Corria o ano de 1982 quando, tanto nos Estados Unidos quanto no Brasil, o debate sobre o lugar da mulher estava em efervescência. Numa entrevista feita ainda por carta, a feminista Christie V. Mcdonald conversou com o filósofo Jacques Derrida. Sua primeira pergunta é sobre o lugar da mulher. Ele, que costumava responder criando problemas com o modo como as perguntas eram postas, contra-argumenta: “Por que deveria existir um lugar para a mulher? E por que um, um só, um que fosse essencial?”

O questionamento parecia contraproducente para a militância feminista, ávida em busca de libertar as mulheres de lugares tão determinados durante tanto tempo, mas aos poucos foi fazendo sentido. Sim, era preciso fazer a libertação das mulheres, mas era preciso também prestar muita atenção para não nos aprisionar em novos lugares.

No Brasil da segunda onda feminista, as mobilizações também começaram em torno desse sintagma, expresso no título do livro O Lugar da Mulher: Estudos sobre a Condição Feminina na Sociedade Atual, coletânea do mesmo ano de 1982, com textos de autoras como Madel Luz, Jaqueline Pitanguy e a socióloga Lélia Gonzalez, que fazia ali uma espécie de estreia no front do feminismo negro, interrogando justamente o problema do lugar da mulher negra ser o da empregada doméstica.

A dança e a revolução

Falar em lugar da mulher na segunda década do século 21 tem um tom de revival, é verdade, mas não apenas aos anos 1980. Por isso, me parece que o melhor a ser recuperado do passado é a rebeldia de algumas feministas – entre as quais me incluo – com essa urgência topológica. Não seria melhor lutar para escolher o próprio lugar? Diferentes correntes internas já fizeram eco a essa pergunta, seja pelo campo liberal, reivindicando qualquer lugar e nenhum entrave à liberdade feminina, seja pelo campo das anarquistas libertárias, inspiradas na provocadora frase da feminista russa Emma Goldman (1869-1940): “De nada me serve a sua revolução se eu não puder dançar”, lembrada por Derrida na conversa com Christie V. Mcdonald.

A topologia de alguns feminismos acabou sendo atravessada por grandes retrocessos, como os “movimentos de volta ao fogão”, que fizeram muito barulho nos Estados Unidos dos anos 1990 e no Brasil dos anos 2000. Era o anúncio – falso – do fim das lutas feministas, já que as mulheres supostamente estariam cansadas de ocupar tantos lugares ao mesmo tempo, alguns, como o mercado de trabalho, “impostos” pelos movimentos feministas. Haveria, diziam os inimigos, um desejo feminino de voltar aos lugares de sempre.

A ameaça de fim dos feminismos acabou sendo o início de uma nova era, em que as duas principais palavras dos termos do debate dançam: “lugar” e “mulher”. Essa talvez seja uma das grandes contribuições da filosofia de Judith Butler para os feminismos na virada do século. Se a ideia de lutar por lugares específicos já andava sob suspeita, coube a Butler declarar que estava na hora de a política feminista deixar de ser feita em nome das mulheres. O que parecia um disparte, fez muita gente entrar na dança.

Nesta pista hoje se movimentam todas as pessoas cujas vidas estão de algum modo marcadas por outros ritmos, outras formas de (re) existência, deslocamentos improváveis e posições que já não mais reivindicam um lugar – e porque haveria de ter só um? O que parecia um cenário estranho hoje produz efeitos na vida cotidiana. Do debate sobre o lugar da mulher à desconstrução das normas de gênero, passaram-se poucos e intensos anos, durante os quais proliferaram inúmeras configurações de si, de tal forma que a cena que tinha como únicos protagonistas os “homens” e as “mulheres” passou a ser compartilhada com todos/todas/todes/[email protected]/tod_s/todxs em qualquer lugar onde haja ruptura com a pretensão de normalidade.

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Carla Rodrigues é professora de filosofia na UFRJ, onde coordena o laboratório Escritas - Filosofia, Gênero e Psicanálise. É autora de livros como Coreografias do Feminino

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Mulheres são penalizadas por meio de "machoexplicação", "machointerrução", "machoapropriação", "loucurização", consideradas menos capazes do que os colegas homens em posições de poder similares. Somos consideradas fracas se somos delicadas e autoritárias se adotamos postura rigorosa; menos produtivas por sermos responsabilizadas pelo cuidado com a família e por gestar crianças; menos disponíveis para assumir cargos de gestão por causa dos filhos, que deveriam ser responsabilidade de pai e mãe igualmente.

Após o parto, o esforço das mães para voltar ao trabalho assim que possível não é sequer recompensado pelas empresas. Pesquisa da Fundação Getulio Vargas divulgada este ano acompanhou a trajetória do emprego de 247,5 mil mulheres entre 25 anos e 35 anos que tiraram licença-maternidade entre 2009 e 2012. Destas, 48% foram desligadas do emprego em até 12 meses após o início da licença-maternidade. O risco de ser demitida no sexto mês após o parto aumenta de 5% no primeiro mês para 15%.

A quantidade de ex-gestantes que movem processos trabalhistas tem aumentado no país. No Tribunal Superior do Trabalho, novas ações envolvendo rescisão de contrato de trabalho subiram 23,3% entre 2014 e 2016. O TST também informa que, entre 2015 e 2017, 20 mil novos processos de assédio sexual foram recebidos pela Justiça do Trabalho em todo o Brasil, o que corresponde a uma nova ação por hora todos os dias dos últimos três anos. As vítimas são na maioria – surpresa! – mulheres.

Eu também!

A conexão do mundo da cultura com o da internet, no movimento #MeToo, vem desempenhando papel decisivo também no fortalecimento da luta contra o assédio. Com o apoio de grandes estrelas de Hollywood, ele permitiu que casos de assédio sexual e estupro na indústria fossem denunciados – e se espalhou pelo mundo todo, em diversas áreas de trabalho.

Quem começou tudo foi a ativista americana Tarana Burke, com o objetivo de que mulheres (e homens também) revelassem que haviam sofrido assédio sexual, estimulando empatia entre as vítimas. Ao declarar #MeToo (eu também), pessoas que sofreram caladas quebraram a cortina de silêncio e perceberam que não estavam sozinhas. Criada em 2006 no MySpace, a campanha viralizou mesmo no Twitter em 2016, com um tuíte de Alyssa Milano, pedindo que todas que já tivessem sofrido assédio tuitassem #MeToo em seus perfis. De acordo com ela, mais de 1,6 milhão de pessoas responderam na hora. Desde então, o movimento explodiu.

Identidade e diversidade em 10 livros

Até agora, já foram denunciados mais de 130 homens “respeitáveis” na cultura, política, esporte, educação, entre outros setores. Personalidades poderosas como Harvey Weinstein, o (agora ex-) produtor da Miramax; Mario Testino, renomado fotógrafo de moda; e Larry Nassar, médico da seleção de ginástica multimedalhista dos EUA, perderam cargos e respondem criminalmente por seus atos. O movimento também estimulou a criação de mecanismos mais eficientes para que pessoas denunciem assédio no ambiente de trabalho, em diferentes setores da economia.

No Brasil, a expansão do #MeToo em escala global foi sucedido pela denúncia de assédio do ator José Mayer em blog da Folha de S.Paulo, por parte da figurinista Susllem Tonani. Atrizes, produtoras, maquiadoras, figurinistas e outras funcionárias e colaboradoras da Rede Globo se uniram em apoio a Tonani e lançaram a campanha Mexeu com uma, mexeu com todas. Atrizes como Letícia Sabatella, Taís Araújo, Camila Pitanga, Glória Pires, Adriana Esteves, Nathalia Dill, Drica Moraes e Leandra Leal foram fotografadas com a camiseta da iniciativa, reforçando-a.

O ator primeiro negou a acusação, depois voltou atrás, confessou e pediu desculpas, acusando a cultura de sua geração pelo comportamento assediador. Como consequência, Mayer está suspenso de todas as programações da Globo desde abril de 2017, mas não enfrenta processo judicial, pois Tonani optou por não prestar queixa.

Diferenças unidas

Dentro dos próprios movimentos, há uma infinidade de identidades em conflito. O feminista, por exemplo, não pode ser considerado no singular, uma vez que mulheres são oprimidas de modos diferentes, “tornando necessário discutir gênero com recorte de classe e raça”, como explica Djamila Ribeiro no livro Quem Tem Medo do Feminismo Negro? E mesmo entre as mulheres negras há grandes distinções, como entre as opressões sofridas por mulheres de pele mais clara e mais escura, o chamado colorismo.

“É necessário entender de uma vez por todas que existem várias mulheres nesse ser mulher e romper com a tentação da universalidade, que só nos exclui”, escreve Djamila Ribeiro. Quer dizer: é preciso reconhecer a individualidade de cada uma. Ao considerar essas diferenças não como oposições e sim como “fagulhas criativas”, como define a professora e filósofa feminista negra americana Angela Davis, é possível interligar lutas e promover mudanças sociais em conjunto.

Roberta Stubs, artista visual e doutora em psicologia com ênfase em arte contemporânea, feminismos e políticas afirmativas, ressalta a importância de ter a diferença como disparadora de trocas. “A diferença como infinita alteridade, aquela que nunca pode ser reduzida ao mesmo. É fundamental reconhecer isso e extrair daí a potência”, diz.




Quem fala?

Paula Carvalho

Asad Haider, editor da revista americana Viewpoint, defende que as políticas de identidade das minorias degeneram em um discurso excludente

Polêmicas sobre identidade têm tomado conta do debate cultural em diversos países. Nos Estados Unidos, a discussão é central nas interpretações da ascensão de Trump e sua relação com um certo tipo de eleitorado. O editor da revista Viewpoint e doutorando em História na Universidade de Santa Cruz Asad Haider lançou recentemente um livro que investiga as origens desse debate no país. Em Mistaken Identity: Race and Class in the Age of Trump, parte do surgimento do conceito de política de identidade para compreender como isso foi se tornando, segundo ele, um discurso deturpadamente excludente. “Sem um programa de mudança social estrutural, ganhar reconhecimento por uma identidade particular é tudo o que resta”, afirma o pesquisador, de linhagem marxista, em entrevista à Bravo!.

De que maneira você critica o conceito de política de identidade em seu novo livro?

Eu mostro que o significado do termo “política de identidade” é muito instável. Hoje ele é usado de maneiras muito diferentes no discurso político americano. Às vezes significa qualquer política relacionada a raça e gênero, em oposição à classe; às vezes significa a ideia de que a política vem de quem você é, e não do que você acredita; às vezes se refere aos interesses de grupos minoritários, que são entendidos como tendo uma “identidade”, enquanto a maioria é simplesmente neutra e universal. Todos esses são significados muito abstratos, e nem sempre são explicitamente discutidos ou debatidos.

Era diferente quando a conceito surgiu?

Sim. As feministas lésbicas negras do Coletivo Combahee River propuseram o termo em 1977 com um significado muito específico, em contraste com os significados abstratos de hoje. Elas assinalaram que os movimentos sociais dos quais participaram eram frequentemente baseados em uma identidade excludente: no movimento feminista, todas as mulheres eram consideradas brancas; no movimento de libertação negro, todos eram presumidos como homens; e no movimento socialista, todos os trabalhadores foram assumidos como homens brancos. Ao afirmar sua identidade como mulheres negras, e se organizar de forma autônoma, elas estavam destruindo essas identidades excludentes e criando uma política de emancipação que ia além dos limites dos movimentos existentes. Isso é o que “política de identidade” significou para elas: uma ideia política específica e revolucionária que superou a exclusão. Por essa razão, eles enfatizaram que a política era sobre trabalhar em coalizões.

E hoje?

Hoje, a política de identidade é muitas vezes altamente excludente e, em vez de produzir coalizões novas e mais radicais, está mais para dividir-se em grupos de identidade e obter reconhecimento da sociedade existente. Acredito que isso se deva ao fato de os movimentos de massa terem sido derrotados nos anos 70 e 80 pelo neoliberalismo nos países capitalistas avançados, e nunca nos recuperamos do modo como isso prejudicou visões de transformação social radical. Sem um programa de mudança social estrutural, ganhar reconhecimento por uma identidade particular é tudo o que resta.

Muitos intelectuais ligados à militância negra afirmam que uma das principais falhas da teoria marxista é que eles quase esquecem de mencionar as relações raciais na análise do poder, especialmente considerando o colonialismo e a escravidão. Como você vê essa questão?

Acho que é um erro grave definir o marxismo em termos de tradições europeias, como, por exemplo, a Escola de Frankfurt. O marxismo começou na Europa porque o capitalismo começou na Europa. Ele acabou por dominar todo o mundo, sob a forma de colonialismo e imperialismo, e revolucionários anticoloniais adotaram e adaptaram o marxismo para suas circunstâncias específicas. Hoje, nem sequer estaríamos falando sobre o marxismo se ele não tivesse sido adotado na África, na Ásia e na América Latina. Portanto, a ideia de que o marxismo é uma teoria branca é absurda. Além disso, o próprio Marx escreveu sobre o colonialismo e a escravidão, e levou esses fenômenos muito a sério. Mais tarde, Lenin tentou fornecer uma teoria detalhada do imperialismo e integrou a revolução anticolonial no cerne do programa da Internacional Comunista. Finalmente, você deve considerar figuras como Amílcar Cabral, que usou o marxismo para teorizar não apenas o problema global do colonialismo, mas também a história de sua própria sociedade.

Raça e classe podem ser unificadas?

Veja o caso do Partido dos Panteras Negras, que assumiu o marxismo como parte de seu modo de entender a opressão do povo negro. Isso foi profundamente influente, mas muitas outras organizações revolucionárias negras consideraram o marxismo relevante para entender sua situação, desde o início do século 20. Essas tradições não devem ser ignoradas. Se entendermos essas histórias, veremos que raça e classe são inseparáveis, tanto em termos de compreensão da história real do capitalismo, como também em propor um programa para combater o racismo.

Você tem pais paquistaneses e escreve que sentiu que não se identificava nem com o modo de vida de Karachi, nem com o da Pensilvânia. Esse sentimento de "não pertencer" se relaciona com o que você escreve, que é um sentimento de mudança na ideia de políticas de identidades?

Minha experiência de estar entre duas culturas e lugares me ajudou a entender que a identidade é sempre construída, sempre instável e mutante. É impossível reduzir a identidade a uma essência contida em você, ou a uma coisa unitária; todos são misturados e essas identidades misturadas são produzidas pelas relações sociais, que estão fora de nós. Isso significa que as identidades não podem determinar o que pensamos, dizemos ou fazemos. Eles não são fundações estáveis. Escrevi em meu livro sobre a indeterminação de minha própria identidade, mas isso não significa que minha identidade seja a base de minhas ideias. Essas ideias podem ser apresentadas por qualquer pessoa, e eu tenho atraído muitas outras pessoas com diferentes identidades para formulá-las. Se os americanos brancos de classe média não estão cientes da indeterminação de suas próprias identidades, eles devem ser educados para compreendê-la.

A sua ideia de uma “emancipação universal” tem alguma relação com o que Ta-Nehisi Coates quer dizer (em "Entre o Mundo e Eu") quando diz que ele e seu filho têm que ir além do “sonho dos opressores” e sair de algum tipo de “sentimento de tribo”?

Eu não concordo realmente com a perspectiva da Coates, que considero estar muito envolvida na ideologia racial. Quando falo de emancipação universal, quero explicitar uma ideia que todo movimento revolucionário contra a opressão tem proposto: de que ninguém seja oprimido. Isso significa lutar contra toda forma de opressão e que toda luta contra a opressão faça parte do projeto de emancipação universal. Se algumas lutas são excluídas, não é universal.

Como você vê essa dinâmica de identidades e as políticas de identidade na era da mídia social? Recentemente tivemos uma pesquisa que mostrou que a maioria das fake news aqui no Brasil são disseminadas através de grupos familiares no Whatsapp. Como lidar com isso?

Eu acho que a mídia social é uma força muito destrutiva. Encoraja as pessoas a performarem suas identidades de formas cada vez mais reducionistas. E também incentiva as pessoas a se denunciarem, e essas denúncias são geralmente expressas em termos de identidade. Em vez de atacar as idias de alguém, as pessoas nas mídias sociais atacam identidades: como pessoa branca, como homem, você não tem o direito de falar sobre raça ou gênero, etc. Isso é completamente atrasado, porque os brancos precisam falar sobre raça para que eles possam trabalhar para superar seu próprio racismo, e os homens devem ser capazes de falar sobre gênero, para que possam trabalhar para superar seu próprio sexismo. Nas mídias sociais há uma cultura de denúncia e public shaming que torna a política impossível.

No Brasil, vivemos mais de 50 anos sob a ideologia de que vivíamos numa "democracia racial". Enquanto isso, a esquerda tinha grande influência do marxismo soviético, que se espalhou através da cultura, artes, cinema, literatura, televisão, enfocando muito mais as desigualdades de classe do que a racial. Você conhece algo da história de lutas de classe e identidade no Brasil? Como você vê a maneira como lidamos com isso?

Não estou familiarizado o bastante com a história brasileira para responder em termos específicos. Em termos mais gerais, acho que existem muitas ressonâncias da experiência com os Estados Unidos e a Europa. A esquerda, por não entender que as energias revolucionárias do mundo vinham de fora da Europa, não conseguiu estabelecer um movimento de massas multirracial. A polarização de raça e classe é uma consequência deste fracasso. Mas não podemos permitir que essa falha defina a esquerda, o marxismo ou o projeto de luta de classes. Como já observei, o marxismo do século 20 foi um fenômeno essencialmente não-europeu. Precisamos recuperar e recuperar essa história, porque seu projeto continua sendo essencial. É impossível superar o racismo sem superar a exploração econômica, e é impossível superar a exploração econômica sem superar o racismo. Tornou-se difícil defender esse argumento nos Estados Unidos e talvez também seja difícil no Brasil. Mas espero que mais e mais pessoas tenham a coragem de argumentar, porque as barreiras têm aumentado.

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Para Natália Trindade, dirigente nacional da União Brasileira de Mulheres e cientista social especialista em gênero e trabalho, celebrar essa diferença “tem muito a ver com o uso do espaço público, ocupar os espaços com os corpos diversos, apontar o fato de que é preciso que o grupo privilegiado perca esses privilégios. E que perder esses privilégios não é algo danoso”.

É claro que quem sofre preconceito é o maior prejudicado, mas os homens também perdem com o machismo, os brancos também perdem com o racismo – afinal, a violência galopante em que vivemos tem muito a ver com a desigualdade racial, com o ciclo de ódio que ela alimenta desde a invenção do navio negreiro.

Entender quais são as identidades que nos representam é fundamental para identificar privilégios, preconceitos e relações de poder que, voluntariamente ou não, reproduzimos. Masculinidade e branquitude são identidades, assim como feminilidade e negritude. E é possível apoiar todos os movimentos identitários afirmativos que debatem em nossa sociedade: ler e ouvir os protagonistas desses movimentos, identificar os próprios privilégios e contribuir para que deixem de existir.